sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Mesmismo

O mesmismo está condenado a morte. Ou talvez a pior das mortes: o ostracismo. Quem morre ao menos pára de sofrer, e quem cai no esquecimento carrega a dor de morrer um pouco a cada dia. E isso funciona assim porque nós funcionamos assim. Somos, por natureza, adoradores dos escândalos e dos escandalosos. Fosse Madonna uma menina "normal" e nunca teria alcançado o sucesso.

O mundo pertence, pois aos anormais. A anomalia é festejada a cada momento nessa vida. E todos procuram ser o mais louco, o mais diferente, o mais mais possível entre todos os mesmos para poderem ser alguma coisa nessa vida. Não é por nada que Madonna dispara contra a religião, contra os bons costumes, contra o sexo, contra o bom-senso, contra qualquer senso. E Madonna não está sendo ela, está sendo apenas aquilo que querem que ela seja.

Esse mundo está cheio de boas moças, de bons rapazes. Todos mergulhados num grande oceano de mesmice. Ser, pois, alguém certinho é a forma mais certa de alguém não ser ninguém. Não se espante com o aparente contra-senso. Na outra ponta da equação, é preciso ser muito são e experto para parecer louco suficiente para o gosto alheio. A medida certa não é fácil de achar. Fosse fácil os hospícios seriam celeiros de estrelas.

Sempre escrevo que os astros adoram condenar o período em que consumiam drogas - o que os transformavam em loucos convincentes sob demanda, ou seja, sempre que desejavam travestir-se de loucos, se drogavam. O grande barato não era a droga, mas saber a quantidade, a freqüência, enfim, controlar e não serem controlados por ela. Raros conseguiram, e muitos são os que ficaram pelo caminho consumindo e sendo consumidos pelas drogas, os loucos autênticos, os loucos trouxas (Raul Seixas, Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Elvis Presley, e tantos outros).

Os loucos mais espertos, os loucos "sob demanda" estão até hoje aqui, são os ex-drogados, os que juram de pés-juntos que o sucesso na carreira não teve nada a ver com a química, com as drogas. Elas até atrapalharem, dizem eles. Como é possível separar isso agora, depois do caso passado, de agido, atuado, de usado (no duplo sentido) drogas? Tardia redenção...

sábado, 25 de outubro de 2008

Mea culpa

Eu tenho vários defeitos e entre eles um muito grave: tirar conclusões apressadas. A pressa nesse caso e na maioria das vezes, acaba por comprometer a qualidade da conclusão. Confirmo o dito popular: "o apressado como crú" - eu disse crú e, embora goste de comida malpassada, o resultado nunca é bom. Pensar e repensar é uma qualidade a ser buscada, questão de bom senso, simples sabedoria.

Pois repensei esse caso do desfecho trágico do seqüestro ocorrido em Santo André/SP. Escrevi alguns artigos a respeito responsabilizando - em parte - a polícia militar pelo insucesso. Isso é meia-verdade, em realidade a doutrina que norteou a ação da pm reflete de maneira correta o modo como pensamos a segurança pública no Brasil.

Cabe analisar a nossa doutrina de segurança pública e a linha mestra que tem sido adotada nas situações de confronto com o crime, que é: - o criminoso é mais importante do que a vítima. E isso se dá de forma concreta pela vitimização - eu chamo de "coitadização" - dos criminosos. Toda ação dos criminosos está previamente justificada pelo problema social que segrega e afasta a oportunidade de uma situação igualitária entre a população. Ponto.

No caso de Santo André, o comandante da operação só fez o que quase todos esperavam dele: optou pela segurança fisíca do seqüestrador. Eu disse "quase todos" porque não imagino que os amigos e familiares da menina Eloá concordem com isso. Mas isso é sempre assim, para sentir a dor é preciso vestir a pele do lobo.